139.

Posted in TEXTOS with tags on 30/01/2011 by Léo Ribeiro

Tentou ser completo quase todos os dias.
Falhou em todos.
Jurou suportar o fracasso de sua imperfeição.
Suou frio, não dormiu, não comeu, não mudou nada.
Queria voltar no tempo, pretérito imperfeito.
Imperfeito outra vez.
Antes não tivesse feito.
Arca com as consequências.
É o faminto que come a carne estragada.
Sofrimento em cem por cento.
Dose completa desse sentimento.

Léo Ribeiro, 30 de Janeiro de 2011

138.

Posted in TEXTOS with tags on 23/01/2011 by Léo Ribeiro

Tenho traços, pedaços, migalhas de história
Tenho jeito mineiro de viver cada dia
Tenho coragem pra dizer que preferia agora
Tenho força de antes para o depois que viria

Tenho aventuras secretas em papel de bala
Tenho lixo guardado, tesouro empoeirado
Tenho degraus quebrados na minha escada
Tenho passos em falso e joelho ralado

Tenho vontade de jogar sem certeza de vitória
Tenho lances pra dar, sem poder comprar
Tenho certeza que minha vantagem é ilusória
Tenho cartas na manga mas não sei roubar

Tenho sorte de não saber onde o meu fim mora
Tenho veias de sangue que pulam da pele
Tenho pernas longas e asas de fora
Tenho gosto estranho por tudo que fere

Tenho fé sem esse nome
Tenho amor ou outro sentimento
Tenho barriga de fome
Tenho chance como alimento

Léo Ribeiro, 23 de Janeiro de 2011

137.

Posted in TEXTOS with tags on 11/12/2010 by Léo Ribeiro

Ele tentou ser perfeito.
O fez por alguém merecedor.
Se entregou um pouco de cada vez.
Do contrário, poderia engasgar por inteiro.
Jurou não ser de mais ninguém.
Sua alma era grande, porém, uma só.
Não quis dar margem para o erro.
Se traçou com régua e gabarito.
Sabia que se fosse aceito, assim seria pro resto da vida.
Reconstruiu cada parte de si para a pessoa prometida.
Não que fosse preciso, mas fazia sentido.
Agora estava pronto, acabado.
Serviu-se de bandeja pra si mesmo.
Claro.

Léo Ribeiro, 11 de Dezembro de 2010

136.

Posted in TEXTOS with tags on 01/12/2010 by Léo Ribeiro

Pretendemos viver de ilusão
Um faz de conta mal escrito
Inventamos asas para não ver chão
Assim sorrimos mais, mas aflitos

Nos pegamos entre o fingir e o ser
Um pouco de realidade: calafrio
Nosso coração não quer só bater
Está louco por algo diferente de vazio

Pior é parar no degrau de uma folha caída
Ela está num extremo, cheia de significado
Enquanto nós, ainda no meio de outra mentira
E o degrau testemunha de nosso fiasco

Léo Ribeiro, 1 de Dezembro de 2010

135.

Posted in TEXTOS with tags on 28/11/2010 by Léo Ribeiro

 

Sonhou acordado com o vazio
Acordou no meio da vida
Lembrou com pesar, coração moído
Amargou cada mordida de um fruto permitido
Pegou-se pensando em morte, devaneio
Sentiu que não existe caminho fácil
Largou-se do décimo terceiro andar
Teve um “nada de bom” para se lembrar
Aproveitou o vento no rosto
Plena descida
Sorriu levemente para o tom de despedida

Léo Ribeiro, 26 de Novembro de 2010

134.

Posted in TEXTOS with tags on 07/11/2010 by Léo Ribeiro

Penso que a chuva é estado de espírito
Já que molha, encharca
Se em mim desaba, alívio
Que me alaga, me lava

Limpa minha mente de céu nublado
Muda meu humor, faz menos triste
Enquanto tira as folhas do telhado
Nó na garganta que ainda insiste

Chuva não se conta em pingos
Não se conta em tempo
Só sei contar que estou sentindo
Mas não sei chover o que estou dizendo

Léo Ribeiro, 7 de Novembro de 2010

133.

Posted in TEXTOS with tags on 31/10/2010 by Léo Ribeiro

Me percebo inteiro e luto
cobrindo todo o antes vazio
Me conjuro senhor de mim
Juro não ser pena, nem folha
nem falha, corrijo
Sei que sou fonte inesgotável de algo
Me supito, me cuspo, precipito
Sou ferro e fogo de fato
só não me fundo
Fundo é o buraco
do qual penso ter saído
Só esse negativo que não me sai
De melhores intenções sou construído
Mas só servem de margem para aquele vazio
Aquele que deixa tudo passar por dentro
sem o gosto ser sentido
Tudo passa indigerido
Luto de alegria sem ter nascido

Léo Ribeiro, 31 de Outubro de 2010